O grifo na Antiguidade

O grifo na Antiguidade 2021-03-29T16:49:09+02:00

© JC Moschetti

Por Hélène Bouillon, conservadora do Museu Louvre-Lens e doutorada em egiptologia. Especialista em relações entre o Egipto e o Próximo Oriente Antigos, é atualmente co-comissária da exposição Les Tables du Pouvoir (As Mesas do Poder) e está a preparar um projeto em torno dos animais fantásticos.

Com que se parece um grifo? Onde encontramos os seus primeiros vestígios?

O grifo é uma criatura mitológica envolta em mistério. E isto já dura há 5000 anos! Tem corpo de leão e garras, asas e bico de ave de rapina. Os seus primeiros vestígios foram encontrados no Irão, impressos em argila: trata-se de impressões de selos que remontam a cerca de 3500 a.C. Na ausência de textos mitológicos, ninguém conhece o significado exato dessas imagens; mas sabe-se que elas circulavam pois, por volta da mesma época, há leões alados com cabeça de águia que são também representados no Egito, em paletas cosméticas esculpidas. Os especialistas pensam – sem certeza – que nessa época o grifo representa as forças brutas da natureza, uma vez que aparece a desfilar lado a lado com outros animais, quer selvagens (leões, touros) quer fantásticos (criaturas metade serpente, metade pantera).

© camerawithlegs

No segundo milénio a.C., imagens do grifo aparecem no Levante (Anatólia e Chipre), nomeadamente em placas de marfim esculpidas a ornamentar tronos e leitos reais. O grifo é aí representado em posição sentada, com as asas abertas e exibindo um pequeno tufo nas penas. No mesmo período, viaja ao sabor das trocas comerciais em barcos da região de Canaã (costas da atual Palestina, Síria e Líbano) e mais tarde, no primeiro milénio a.C., também em barcos fenícios e gregos, chegando às imediações do Mar Negro, onde passa a decorar as armas e o mobiliário de povos nómadas como os Citas. Para os Gregos, os grifos são os guardiões dos tesouros de Apolo e de Dioniso. Na mesma altura, o grifo é utilizado como elemento decorativo em vários palácios dos Persas Aqueménidas. Encontra-se ainda em tronos e louça cerimonial dos Frígios e dos Lídios, na Anatólia.

Qual o seu papel, o seu simbolismo, na mitologia?

O simbolismo do grifo evoluiu ao sabor das suas viagens, ao ser adotado por povos de civilizações tão distintas. Simboliza ao mesmo tempo a força (o corpo de leão), a vigilância (os olhos perscrutadores de águia) e a ferocidade (as garras e o bico pontiagudo de ave de rapina). Para os Egípcios, simboliza o rei vitorioso: os arqueólogos encontraram-no sobretudo em locais ligados à esfera real, nomeadamente em templos contíguos às pirâmides do terceiro milénio a.C. Certos peitorais (joias em ouro) do início do segundo milénio a.C. representam igualmente o rei sob a forma de um grifo a chacinar os estrangeiros. Por fim, é do grego que vem a nossa palavra “grifo” (séc. V a.C.), que significa “aquele que tem garras”.

Sob que forma o podemos encontrar após a Antiguidade? Qual o seu legado na Arte e na História contemporâneas?

O interessante é que, desde os seus primeiros vestígios no Irão, o grifo tem sempre a mesma cabeça mas, à medida que vai sendo adotado por outros povos, tem tendência para mudar de penteado. Durante o primeiro milénio a.C., o grifo passa assim a exibir orelhas pontiagudas, à semelhança dos demónios mesopotâmicos. E é precisamente assim que aparece representado nos bestiários da Idade Média. Nesta época, e bem assim durante o Renascimento, surge em diversos brasões de armas. Em relatos de viagens como as de Marco Polo, lê-se que na Índia e na Etiópia foram avistados enormes grifos e que estes eram capazes de levantar elefantes com as suas garras para depois os largar contra o solo antes de os devorar.

O denominador comum de todas estas lendas é, pois, que o grifo é um animal mitológico forte e perigoso, temido e respeitado.

Quanto à estátua de grifo representada na imagem de Astérix e o Grifo, esta corresponde perfeitamente à sua representação durante o primeiro milénio, adotada pelos Gregos e por todos os povos mediterrânicos até aos nossos dias, já que herdou duas pequenas orelhas pontiagudas. E – surpresa! – dir-se-ia que estamos aqui perante a maior representação escultórica conhecida do grifo!

Astérix e os animais mitológicos

Ao longo das aventuras de Astérix, os nossos heróis cruzaram-se com várias outras criaturas fantásticas em encontros sempre hilariantes. Aqui fica uma seleção dessas outras criaturas, que dá vontade de reler os álbuns respetivos enquanto se aguarda a publicação de Astérix e o Grifo!

– aterradoras criaturas metade pássaro, metade morcego no filme animado Os XII Trabalhos de Astérix (1976)
– um dragão pouco melómano em A Rosa e o Gládio (1991)
– touros alados e centauros da Atlântida em O Pesadelo de Obélix (1996)
– um elfo rabugento em O Regresso dos Gauleses (2003)
– o antepassado do Monstro de Loch Ness em Astérix entre os Pictos (2013)
– um unicórnio inconveniente em O Papiro de César (2015)